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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Os Desigrejados


Quem se agrega ao Noivo não pode deixar de congregar com a Noiva

A primeira vez que ouvi falar dos desigrejados fiquei um pouco confuso. De início, supus tratar-se dos sem-igreja. Afinal, há milhões de pessoas que ainda não foram alcançadas pelo Evangelho. É só abrir a cortina da janela 10 x 40, para visualizar povos, nações e tribos que suspiram por Deus. Em seguida, pensei num outro grupo: os sem-templo. Pois existem muitas comunidades cristãs, principalmente nas regiões ribeirinhas e nas caatingas, que lutam com dificuldades ingentes para construir seus locais de adoração.

Resolvi, então, aprofundar-me no assunto. Fui ao computador, acionei o Google, e digitei: desigrejados. Os sites vieram-me às dezenas. Até aquele dia, não sabia que os desigrejados já eram um fenômeno. Tive, porém, dificuldades para atinar-lhes com a origem. Onde surgiu essa gente? No Brasil? Ou, nos Estados Unidos? Como as informações eram desencontradas, achei por bem deixá-las de lado e concentrar-me no problema em si.

Descobri, depois de alguma pesquisa, que os desigrejados compõem um grupo enorme de evangélicos que, decepcionados com a igreja, alegam servir apenas a Cristo. Eles têm inclusive uma confissão de fé: “Jesus, sim; Igreja, não”. Lembrei-me, em seguida, de que em Corinto também havia um grupo de desigrejados. E eles diziam pertencer apenas a Cristo. Havia os que revelavam forte predileção por Cefas. Tinha os que se identificavam com Paulo. E também os que se empenhavam por Apolo. Mas devo dizer que o pior grupo era o dos que declaravam ser apenas de Cristo.

Um verbo fatal
Ainda um pouco aturdido, recorri aos dicionários para ver se o verbo desigrejar já havia sido registrado. Em nenhum dos léxicos o encontrei. Mas vim a concluir o óbvio: embora não haja sido lexicografado, vem sendo conjugado em todas as vozes e modos. Pelo menos é o que revela o último censo do IBGE. Suponhamos, porém, houvesse o verbo desigrejar. Seria ele transitivo? Ou intransitivo? Precisaria de um verbo auxiliar para emprestar-lhe algum significado? Como não sou linguista, não posso dar-me ao luxo de discutir semelhante questão. Para mim, o desigrejado, se algum sentido tinha, perdeu-o nalgum trecho de sua jornada.

Se a partir desse fenômeno um substantivo foi criado, acho possível também arranjar-lhe alguns sinônimos. Pensei nestes: desrebanhados, despastorados, desmembrados e, finalmente, descristianizados. No momento, não me ocorrem outros. Nos meus tempos de criança, o desigrejado era conhecido por um único epíteto: desviado. O meigo Jesus diria tratar-se de um filho pródigo. Mas tanto o desviado como o pródigo anseiam por voltar à casa paterna. Os desigrejados, não; eles são a sua própria igreja. Talvez até já possuam uma ata com os termos de sua fundação.

Rosto bonito, corpo feio
Como reagiria você se alguém lhe declarasse: “Acho o seu rosto lindo, mas o seu corpo é muito feio”. Tal assertiva seria tida como deseducada e ofensiva. Mas é o que muitos crentes estão dizendo a Jesus. Sim, isso acontece todas as vezes que um desigrejado profere o seu credo: “Cristo, sim; Igreja, não”. Não é Jesus a cabeça da Igreja? E não é a Igreja o seu corpo místico? Então, como posso achar-lhe bonita a cabeça e feio o corpo?

Usemos outra metáfora. Como você se sentiria, se um amigo lhe confidenciasse: “Gosto muito de você. Porém, não lhe aturo a esposa”. Se formos aos escritos paulinos, descobriremos que a Igreja é a esposa do Cordeiro. E que, por ela, entregou-se o Senhor à mais horrenda das mortes. Logo, não podemos repugnar-lhe o corpo, nem repulsar-lhe a esposa.
A Igreja é o grande projeto de Deus, pois através dela expande-se o Reino dos Céus até aos confins da terra.

Eu preciso da Igreja
Não consigo passar sem a Igreja. Descobri que necessito mais dela do que ela de mim. Se não vou ao culto, segrego-me. Ilho-me e distancio-me. Logo, concluo: a Igreja, embora não me salve, é-me necessária à salvação; dela advém-me os meios da graça.
Não vá pensar que me guio pela cartilha de Cipriano. Pelo ano 250, escreveu o celebrado doutor de Cartago: “Fora da Igreja não há salvação”. Mais adiante, arremata: “Ninguém pode ter a Deus como Pai, se não tiver a Igreja como mãe”. Não quero radicalizar-me, pois em teologia todo extremismo acaba por puxar outro extremismo. Entretanto, ouso acrescentar: “Lugar de salvo é na casa do Pai e lugar de filho obediente é junto à 'mãe'”.

Sei muito bem que nem todos os que estão na igreja são Igreja. Todavia, os que são Igreja estão nalguma igreja. A conclusão é mais do que óbvia: na igreja, está a Igreja. E isso para mim basta. Assim como em Israel estava o Israel de Deus, o mesmo ocorre com a Igreja. Mas, o que fazia o Israel verdadeiro? Abandonava o Israel institucional? O remanescente fiel sabia que estar entre os pagãos era pior do que permanecer entre os nominais. Por isso, os santos perseveravam através de seu testemunho e confissão.

Na esposa do Cordeiro, vemos às vezes alguma ruga. Esse sulco, porém, pode ser eu. Ou, então, você. Mas, nem por isso, o Senhor deixa de apreciar-lhe a beleza. Esposo amante que é, tira-lhe todos os franzidos através da ação do Espírito Santo. E, assim, você e eu somos adornados para o dia de nossa plena redenção. Se a Igreja é imperfeita, eu sou a sua imperfeição. Por isso, não arredo pé de seus átrios, pois ela conduz-me, através dos instrumentos da graça, à perfeição em Cristo.

Creio na comunhão dos santos
No Credo dos Apóstolos, redigido por volta do segundo século, há uma cláusula que me chama a atenção por sua simplicidade e beleza: “Creio na comunhão dos santos”. Oriunda do vocábulo grego koinonia, a palavra “comunhão” denota, entre outras coisas, companheirismo. Ora, se a palavra “companheiro” significa etimologicamente “aquele que come pão junto”, não posso deixar de evocar esta emblemática passagem de Atos:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At 2.42-47).

Na leitura desse texto, conclui-se imediatamente: na Igreja Apostólica, não havia desigrejados; existia comunhão perfeita. Portanto, observemos a recomendação do autor sagrado aos que se iam desigrejando: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.25).
Por conseguinte, quem se agrega ao Noivo, não pode deixar de congregar com a Noiva.

| Autor: Pr Claudionor de Andrade


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